Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.
Se for um copo é um copo
se for um cão é um cão.
Mas quando o copo se parte
e quando o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco
e um cão não passa dum cão.

Quatro cacos são um copo
quatro latidos um cão.
Mas se forem de vidraça
e logo foram janela?
Mas se forem de pirraça
e logo forem cadela?
E se o copo for rachado?
E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um gato
não é um cão é um chato
que nos interrompe o sono.

E se o chato não for chato
e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato
não é um cão é literato
que anda sem eira nem beira
e não ganha para a roupa.

E se o prato for de merda
e o literato de esquerda?
Parte-se o prato que é caco
mata-se o vate que é cão
e escreveremos então
parte prato sape gato
vai-te vate foge cão

Assim se chamam as coisas
pelos nomes que elas são.

— "O objeto", José Ary dos Santos
“e passou-se comigo, não tem importância, deixe, histórias mortas que a cabeça varreu, encontrar os melros que supressa para mim, uma ideia de melros da qual não tinha a certeza como não tinha uma ideia das ondas embora não conseguisse explicar porque não ficam quietas em lugar de se mexerem, a professora de geografia culpava a lua mas a lua um calhau à deriva que se enreda nas árvores e em que as nuvens tropeçam, ao enredar-se aparece o vento a soltá-la”
Não é meia noite quem quer, António Lobo Antunes 
“amanhã estou contigo, mano, e levantamos o mundo, o meu marido sempre concentrado nas unhas
— Tanto tempo para quê?
os faróis dos automóveis no tecto do quarto, mais ambulâncias, a camioneta da Câmara, que recolhia o lixo, explosões, estrondos, conversas, sons que a noite ampliava, a noite uma garagem deserta pronta a encher-se de ecos que se misturam, se cobrem, insistem sem fim, uma queda em qualquer lado, um protesto no soalho, um cano no interior da parede a afirmar
— Estou cá
e estava cá, o infeliz, entalado na argamassa sem ver um pito da casa, procurando adivinhar, procurando existir”
Não é meia noite quem quer, António Lobo Antunes
saw this outside my faculty today. food for thought, Heidegger would say. 

saw this outside my faculty today. food for thought, Heidegger would say. 

“a seguir ao jantar descia à muralha para ouvir as ondas no escuro, pensava designando uma delas
— Essa aí é a minha vida
e logo outra vida a seguir, e outra, e outra, daqui a pouco ninguém se lembra de mim, a certeza de ser esquecida assusta-me porque, ao não ser, não fui nunca e, se não fui nunca, quem existiu no meu lugar, quem existe até hoje no meu lugar, come a minha comida, dorme na minha cama, usa o meu nome e desaparecerá ao mesmo tempo que eu, […] e quando se fala de mim de que parte se fala, deixem-me ficar em sossego na água, não me tirem do mar, apetece-me ser uma folha das árvores da rua a decomporem-se, em fevereiro, nos charcos, só nervuras, só filamentos […].”
Não é meia noite quem quer, António Lobo Antunes